Definição

2012-02-09manual-typewriter-0209stock

O som das teclas da minha antiga máquina de escrever, que os meus pais me deram quando estava na segunda classe, povoava a casa durante horas a fio. Perdia-me a escrever, depois perdia-me a ler, e emergia deste mundo de palavras meio atordoada, como se tivesse ido a outra dimensão.

Deixei a Olympia em Portugal quando vim para os Estados Unidos, munida de um Macintosh, iPad e iPhone. Ainda tenho dezenas de cadernos em papel onde gosto de escrever à mão, apesar de anos e anos a tirar notas em grande velocidade terem arruinado a minha letra. Sou diferente quando escrevo em meios diferentes. O que me persegue, o que assombra, o que alivia, é esse acto de escrever.

Quando estava a tirar o segundo café de hoje, destes cafés americanos de que ninguém gosta e que eu saboreio com um consolo injustificado, assaltou-me uma inquietude que eu achava resolvida há muito. O que é que me define?

“Aquilo que amo”, retorqui mentalmente. Mas é uma resposta falaciosa. Aquilo que me define é o que escolho fazer todos os dias, não um sentimento difuso e abrangente que serve para qualquer momento da vida.

O trabalho. Os livros. As ideias à espera de papel.

As pessoas que estão longe. As que se mantêm por perto.

Os valores, os ideais, o que me ensinaram os pais.

Portugalidade. Bandeira americana. Califórnia.

Liberdade. 

Quem sou eu, se não a miúda que batia jornais à máquina e os vendia a 20 escudos ao pai e à mãe?

Vou ter de escolher entre algumas destas coisas, e não é uma questão daquilo com que ficarei, mas aquilo que suportarei perder. O que me define? Aquilo sem o qual já não sou eu, mas uma versão falsificada, uma tentativa forçada de ser outra.

A mudança é a única constante, e a adaptação é a chave para a sobrevivência. Mas há coisas que não se pode deixar para trás. Não falo de posses materiais, porque nada do que tenho participa na construção de quem sou, e tudo o que se perde é substituível. Falo da essência. Um músico que deixa de tocar, um professor que deixa de ensinar, uma jornalista que deixa de escrever.

É preciso ter dinheiro suficiente para não passar a vida num sufoco, para poder escolher o que se gosta de fazer em vez de sofrer de segunda a sexta. No entanto, sem propósito que faça despertar de manhã, sem a excitação de um projecto, sem o orgulho de uma conquista, não há dinheiro que tape o buraco da alma.

 

 

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s