O copo meio cheio 

Há um simbolismo nestes dias de fins e de começos de que gosto em particular, porque sou dada a rituais. Olhar para trás e pensar na catarata que foi este ano de 2015 faz parte do exercício – se não parar para o registar, terei compreendido mesmo o que se passou? Terei aprendido alguma coisa? 

Não, o ano não passou a correr. Nós é que desperdiçámos muito tempo. O ano percorreu-nos o corpo com a mesma parcimónia de sempre, mas não estivemos cá para o sentir. Andámos fechados à frente do computador, metidos no trânsito, a espumar da boca à frente de maus programas de televisão, a navegar no Facebook feitos asnos pela noite dentro, hipnotizados pela luz do ecrã do telemóvel. A trabalhar dias inteiros, semanas a fio, com um desequilíbrio tremendo entre a vida que queremos viver e aquela a que somos obrigados. 

 
Disse “basta” muitas vezes, porque tenho a noção do que é preciso fazer. Mas a mudança chega devagarinho. Aquele Sábado em que se desliga o computador, aquela sexta à noite em que não se respondem a emails, as caminhadas à volta do bairro à hora do almoço para cheirar as flores e apanhar sol. Tenho esta ansiedade de querer organizar os dias e perpetuamente sentir que me escapam ao controlo. O que se torna tarefa hercúlea quando se vive com um amante do caos, uma mente criativa que não se importa com a confusão, um homem que continua a ensinar-me o que é o amor e porque é que tudo isto vale a pena. 
Este ano houve do melhor e do pior. Tive um casamento de sonho e o calor de Miami em Fevereiro. Óscares, tapetes vermelhos e oportunidades que nunca pensei conseguir. As maiores conferências do mundo que me deixaram de rastos, mas com a certeza de que faço o que gosto. Tive Coachella. Disney. Silicon Valley. Santa Mónica, Runyon Canyon e Las Vegas. 

Foi difícil estar longe da minha terra, da família e dos amigos, da gente que sabe quem eu sou e de onde venho. Foi mais duro que o imaginado. Mas foi esse o peso da minha decisão. Agora tenho duas casas, e terei sempre saudades daquela onde não estiver. 

Aprendi muito em 2015. Agora espero saber usar esse conhecimento para que 2016 seja melhor, mais significativo, com menos desperdício de vida. Um brinde a mais um começo. Que eu seja capaz de olhar para o copo e vê-lo meio cheio, à espera de ser saboreado. 

E a vocês, que vejam no copo o que bem entenderem. Caramba, espetem com ele no chão se vos der na gana. Bom ano! Que seja dos bons. 

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