Saia amarela

Sufoca-se dentro desta sala virada para o sol que bate o dia todo. Tenho um jarro com vinagre e um funil de papel onde jazem mortas dezenas de moscas da fruta, traídas pelo cheiro intenso do líquido pavoroso que de outra forma só usaria para limpar o fogão. Não me importa tanto que a cozinha tresande porque descobri que o vinagre me leva de volta à infância, quando não se gastava dinheiro em detergentes e se limpava o mármore da cozinha com o líquido de maus odores, e eu não percebia como se podia comer o que também servia para limpar. Só voltei a usar vinagre na salada em adulta, e por breve tempo. Agora uso-o para matar as moscas que me atazanam as bananas, ao mesmo tempo que me transporta para essa década mística arrumada na minha cabeça com ordem e etiquetas.

Ocorreu-me entre as bananas e o café uma tarde em que dançava na entrada da casa antiga, com uma saia de roda amarela e tartarugas brancas. Tocava um disco de vinil que o meu tio do Barreiro me deixou trazer da escola onde  trabalhava, que tinha sido vandalizada e agora exibia as entranhas em caixotes que as pessoas podiam vasculhar. Era um disco de 45 rotações, só com duas músicas brasileiras. Gostava de me lembrar delas, mas varreram-se-me. Lembro-me de rodopiar sozinha na entrada ao som de uma música cantada por um palhaço que dizia que a alegria era para crianças “dos oito aos oitenta anos.” Eu tinha oito. Eu sabia que tinha oito de todas as vezes que ouvia essa música. Ter oito era como ter ouro. Tudo pela frente, a mais nova de todos, como se a idade fosse um dom e não um estado.

Mas um dia esbarrei com uma foto minha do Carnaval de 1987, quando tinha seis anos, em cima do carrossel de um parque que eu adorava e era uma mina de perigos, de tal ordem que não sei como todos sobrevivemos à ferrugem, aos escorregas de metal e aos baloiços meio partidos. Tinha perdido dois dentes da frente nessa foto. Olhei para o espelho e de repente percebi que já não era a mesma. Invadiu-me uma tristeza imensa e refugiei-me por baixo da cama do meu irmão, onde passava regularmente para deixar rabiscos no estrado. Deitei-me na alcatifa, que com certeza estava infestada de ácaros, e premi a fotografia contra o peito, chorando baixinho. “Cresci!!, soluçava, “cresci!”.

Aos 14 anos, comecei a usar cremes de noite e a dizer à minha mãe, enquanto massajava as bochechas: “Não estou a ir para nova.”

Ocorreu-me entre as bananas e o café que este pavor de envelhecer foi o mesmo que me fez largar a minha vida em Portugal. Antes tinha pânico de me acomodar, depois passei a ter pânico de me arrepender. Recomeçar é duro. A coragem de sair e os sacrifícios para me aguentar ofuscaram esse pânico de envelhecer. Na verdade, perdi-o, algures entre as saudades do meu cão e os passeios no bairro dos jardins maravilhosos.

Na verdade, perdi-me um bocado a mim mesma. E até isso me causa menos desconforto do que antigamente; suponho, de forma vaga, que seja a melhor oportunidade de me redefinir. Esta saia amarela cheia de tartarugas brancas sobrevive em mim. Tenho a certeza de que o meu eu com oito anos continua a dançar algures, e eu poderia voltar a vê-la se soubesse ignorar o tempo.

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