Dieta saudável: da ciência às modas e best-sellers

O último post que publiquei sobre dietas hiperproteicas saiu no Diário de Notícias e rendeu-me algumas mensagens enraivecidas, do tipo “você só diz disparates, se não percebe nada disto esteja calada.” É o típico contra-argumento na internet, que não explicita os pontos com se discorda e em vez disso faz uma avaliação generalista sobre o carácter da pessoa (é uma idiota, burra, vendida, etc.).

Aquele post era sobre a minha experiência pessoal com dietas hiperproteicas durante vários anos, em que experimentei desde as versões com batidos e barritas até às versões com proteínas naturais (em especial quando era apenas vegetariana, por oposição a vegan que sou agora). Mas foi também resultado das contradições que me foram pondo à frente como jornalista, nomeadamente em entrevistas a nutricionistas sobre estes estilos de dietas e até sobre a diferença entre alimentos de agricultura biológica e não biológica.

Ouvi e registei posições a favor e contra as dietas hiperproteicas, os alimentos biológicos, a restrição de calorias, o treino em jejum, os efeitos dos detox, o consumo de leite, o jejum intermitente, a alimentação natural, o consumo de gluten, treino de força, aeróbico e em circuito, a proteína de soja contra a de ervilha, enfim. Uma das últimas médicas que vi por causa da alimentação contradisse tudo o que me dissera a anterior: que os batidos de proteína eram um excesso grave para o fígado, que estava a ingerir doses demasiado baixas de calorias e devia aumentar rapidamente o consumo de grãos e cereais.

Não obstante o senso comum que se pode usar na alimentação – moderação nas quantidades, muitos vegetais e frutas, alimentos processados doces ou gordurosos apenas de vez em quando – a verdade é que o que existe de modas (Paleo, Atkins), linhas gerais oficiais (menos sal, mais café, menos açúcar, mais vinho) e médicos que militam em campos opostos justifica a confusão. É também uma evidência de que não há um consenso científico sobre a melhor forma de ter uma dieta saudável, um guia único e definitivo para a saúde duradoura, ainda que a dieta mediterrânea continue a ser a mais defendida.

Não se pode olhar para isto sem ter em conta variáveis que não estavam presentes num passado recente – as condições terríveis em que os animais são criados, alimentados com farinhas e entupidos de antibióticos, a extenuação do solo por não se respeitar o pousio, a qualidade da água, os interesses da indústria alimentar e farmacêutica (uma faz engordar, a outra ajuda a emagrecer, uma faz adoecer, a outra trata a hipertensão), o estilo de vida mais sedentário, a falta de tempo para cozinhar em vez de comprar feito e processado. Pode-se tentar comer como no paleolítico, mas as condições mudaram; pode-se advogar que tudo o que é biológico e natural é melhor, mas um cogumelo venenoso também é natural e ninguém o quer; pode-se argumentar que é preciso pagar para fazer detox, mas até hoje o fígado e os rins sempre trataram do assunto de graça.

A própria comunidade científica não se entende. De outra forma, a roda dos alimentos não teria uma presença ostensiva de leite e carne, quando vários estudos apontam constantemente para os benefícios de uma dieta com pouco consumo de produtos animais, ou plant-based, na prevenção de doenças como cancro e cardiovasculares. Ainda esta semana, foi publicado na Fortune um extenso documento do médico Dean Ornish, presidente do Preventive Medicine Research Institute e professor de medicina na Universidade da Califórnia, que defende isto mesmo. O dr. Ornish iniciou um programa de “lifestyle medicine”, que é sobretudo preventivo e se baseia numa dieta plant-based, passo a repetição. Quantas vezes é isto que nos dizem? Que somos o que comemos? 

E ainda assim, de cada vez que se questiona a alimentação standard, que é obcecada por proteínas animais, dizem-nos que não percebemos nada disto. Há médicos a defender que se coma tudo cru, outros que se elimine o gluten, outros que se tome substâncias milagrosas. Tantos estudos que provam uma coisa e o seu contrário, tanto método e avanço, e estamos perante uma epidemia de obesidade e doenças relacionadas com a alimentação como nunca houve na história da Humanidade.

Se nada disto convence, então que se atente ao problema da sobrevivência da espécie: a criação de animais em fábricas tal como existe hoje exige um nível de consumo de água e desperdício alimentar que não é sustentável para o planeta (além do impacto que os gases produzidos pelo gado têm na camada de ozono). Reduzir substancialmente o consumo é capaz de se tornar uma necessidade dentro de pouco tempo, mesmo que uma parte da população e todo o Partido Republicano neguem as evidências do aquecimento global.

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