O erro das dietas hiperproteicas

Este texto começa com um disclaimer que é também um claim: experimentei dezenas de versões de dietas hiperproteicas no passado. LEV, Atkins, Dieta 10, South Beach, 31 dias, 3 passos, e variantes sem nome específico. Todas funcionaram durante algum tempo. Nenhuma foi possível de manter e nenhuma teve resultados a longo prazo.

Por dieta refiro-me aqui não apenas a um regime temporário desenhado para perder peso, mas a um regime estável que compõe o estilo de alimentação. A Atkins, por exemplo, defende que a culpa da epidemia de obesidade não é a gordura, mas sim os hidratos de carbono, e como tal, viver ao estilo Atkins é comer para sempre doses baixas de hidratos de carbono – frutas, legumes, arroz, massa, cereais, pão.

Resumidamente e de forma simplificada, eis como os resultados destas dietas são tão bons e rápidos: o organismo alimenta-se de glucose, e uma vez que cortamos as suas fontes, o corpo passa a utilizar gordura como combustível. Os hidratos de carbono também retêm água no corpo; é por isso que se fala de perder peso de água quando se suprime o seu consumo. É possível, com batidos e comida em pó de juntar com água, perder 8 quilos em menos de um mês – aconteceu comigo, em cerca de 20 dias. Há depois uma fase de transição, em que voltamos a introduzir o que retiramos. Durante uns meses corre bem, e depois descobre-se que para manter o peso não se pode voltar a ingerir um nível normal de calorias. Vamos lá a ver uma coisa, uma mulher adulta normal precisa de 2,000 calorias por dia; estas dietas com vegetais de baixo índice glicémico e batidos fornecem em muitos casos menos de 1,000 por dia. Quando se tenta voltar a comer as 2,000 que são necessárias para manter os órgãos todos a funcionar de forma saudável, o peso começa a subir. A água volta a fixar-se e o sódio dá a sensação de inchar.

Portanto, ou se aumenta de peso e passado algum tempo faz-se a dieta outra vez, ou se mantém um nível de ingestão calórica perpetuamente baixo, o que vai dar ao esgotamento do corpo. Chegará ao ponto em que se “engorda do ar”, ou não se consegue perder mais. Estes batidos e exagero nas doses de proteína começam depois a ser um fardo para fígado e rins – existe um risco grave de excesso de ingestão de proteínas, e outro associado à perda de minerais quando não se ingerem hidratos de carbono.

Passei por vários efeitos secundários as fases de muita proteína e poucos hidratos – dores de cabeça, náuseas matinais, pele macilenta, cansaço, obsessão com as proteínas e crença de que nunca mais poderia voltar a comer normalmente. Este ciclo começou em 2007 e só acabou entre 2012, quando passei de vegetariana a vegan, e 2013, quando deixei de comer alimentos processados (as barritas, os batidos com proteína de soja, etc).

O que aprendi nestes anos de tentativa e erro é que nenhuma dieta destas é sustentável a longo prazo. O corpo revolta-se quando lhe tiramos nutrientes e calorias; uma dieta temporária ensina zero a comer de forma saudável; é um disparate achar que batidos artificiais são mais saudáveis que esmagar três bananas e comê-las com canela por cima; e que o açúcar das barritas de chocolate é a mesma coisa que o açúcar natural da fruta. Que dá para perder num mês o peso que se ganhou em meio ano, ou que depois de perder peso é possível regressar a uma vida normal comendo a porcaria que se comia antes – ou pelo contrário, que dá para manter o corpo esfomeado para sempre e ser saudável.

A regra que aprendi e funciona sempre é esta: se for natural, o corpo sabe o que fazer com isso. 500 calorias de um abacate não são iguais a 500 calorias de um pacote de batatas fritas. Um bife de carne de vaca com antibióticos não é a mesma coisa que comer o equivalente de proteínas em quinoa.

Já me disseram que faço bullying por “querer impor” o modo de vida vegan (porque alimentar uma geração com fast-food e antibióticos é simpático, claro). A ciência suporta o modo de vida vegan; são inúmeros os estudos e recomendações de clínicos e organizações como as Nações Unidas a sustentar que o veganismo é não apenas a melhor prevenção de doenças como também a solução para parar a destruição do planeta.

A maioria dos contra-argumentos que me dão baseiam-se em tradição ou doutrinas de marketing, como as que nos convenceram de que o leite de vaca era necessário (há muita polémica sobre isto, mas o certo é que não é a melhor fonte de cálcio e há quem defenda que o leite dá cabo do cálcio nos ossos). Também já me disseram que os dentes caninos provam que fomos feitos para comer carne, o que só dá para rir.

De qualquer forma, este não é um texto sobre ser vegan, é sobre o mito de que mais proteínas e menos hidratos de carbono é bom para a dieta e para a saúde. As proteínas devem ser entre 10% e 35% das calorias ingeridas diariamente (no meu caso, consumo 5% apenas, atingindo sempre o mínimo necessário). A média para uma mulher situa-se nos 40-60 gramas, dependendo do peso e da actividade física. Calcula-se multiplicando 0,8 pelo peso (0,8 x 60kg = 48 gramas) com pouco exercício físico e 1,2/1,4 no caso de exercício regular.

Uma barra da Atkins tem 17 gramas; um batido da Herbalife tem 24 gramas. Nos programas onde se recomenda a ingestão de três, quatro, cinco ou mais substitutos de refeição destes por dia, está tudo dito: overdose. Eu estive lá. Não é fácil aprender a comer de forma saudável, com todos os mitos, mentiras e barretes que nos foram enfiados. Fazer pesquisa é o melhor aliado antes de embarcar numa coisa destas (o que não quer propriamente dizer revistas de dietas ou o brutamontes lá do ginásio). Uma coisa é certa: dietas de pacote são tudo menos uma boa solução.

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