Sou feminista

Fiquem com este bónus que é olhar para a Madonna.

“Gosto de mulheres feministas”, disse-me aquele homem por quem eu estava interessada e à beira de me apaixonar, acrescentando que muitos dos seus amigos não percebiam porquê. “Ainda bem”, respondi, “porque eu sou uma feminista do caraças.” Isto foi em inglês, portanto eu não disse mesmo “caraças.” Esse homem casou-se comigo no final de Janeiro.

Não consigo entender as mulheres que esnobam o feminismo, como se fosse um desvio de personalidade, uma coisa do passado que é apanágio de lésbicas ou gajas feias e gordas. Consigo menos entender ainda quando elas gozam com feministas, dizendo-se extremamente à vontade com a sua condição de mulher e por isso não necessitando de extremismos nem de lutas sociais.

Eu vivo num Estado solarengo e cheio de oportunidades onde uma mulher ganha 84 cêntimos por cada dólar pago a um homem, pelo mesmo trabalho. E tenho a sorte de ser branca, porque as mulheres de minorias étnicas ganham apenas 40 a 60 cêntimos. Pelo mesmo trabalho. São problemas de primeiro mundo, pois são; aqui ninguém anda 5 quilómetros para ir buscar água potável nem se arrisca a mutilação genital. Mas e então? Não é preciso que as mulheres lutem por salários iguais? Por condições iguais de acesso a cargos públicos? Políticos? De chefia?

Não há legislação que nos impeça de o fazer, e aí reside a invisibilidade do problema. Parece que temos igualdade, mas a prática revela outra coisa. De tal forma que quando uma mulher é CEO de uma grande empresa vai para as notícias. É notícia uma mulher chegar a CEO. É notícia chegar a presidente de qualquer coisa. As empresas que têm tantas mulheres como homens em cargos de chefia (e que não são de limpeza ou costura) são consideradas avançadas.

Porque o sistema está todo desenhado para acomodar o estilo de vida masculino, e porque uma mulher continua a ter de provar o seu mérito o dobro das vezes para ser considerada capaz. Recai sobre ela a responsabilidade de ser boa mulher para o marido, boa mãe para os filhos, boa dona-de-casa, boa na sua carreira e boa como o milho em todos os aspectos.

Não sei quantas vezes já li estas queixas, estas afirmações, estes dados. E mesmo assim, continua a haver mulheres que fazem pouco do feminismo, e vêm com essa conversa absurda de “não se pode querer tornar igual o que é diferente.” Apetece-me mandar uns tabefes quando ouço isto. Acham mesmo que a ideia é tornar as mulheres machos com mamas? A ideia é lutar por uma igualdade que tem ser arrancada a ferros. Porque quem está no poleiro, quem tem privilégios, raramente os cede de mão beijada. E isso é válido para todos os sectores da sociedade que continuam a ver-lhes negados direitos, na lei ou na prática, por serem diferentes do status quo.

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