Vida de casada

Estou casada há três semanas e já me transformei na minha mãe. Disse isso ao meu marido há uns dias, enquanto lhe pedia pela enésima vez que feche as portas dos armários da cozinha quando já não precisar deles. “Estou em crer que me transformei na minha mãe”, disse-lhe, meio a brincar, meio a falar a sério.

Saem-me da boca coisas que não sabia ter cá dentro. 30 segundos depois de limpar o chão da sala, olho para os ténis que vêm agarrados aos pés dele como se uma onda gigante estivesse pronta para se abater sobre nós. “Nãaaaaaaaaaaaao”, grito, estendendo os braços, implorando que não pise o chão acabado de lavar. Vou à cozinha à socapa, depois de ele lavar a loiça, para inspeccionar os panos e ver se está tudo lavado com os meus standards.

Sento-me ao computador a trabalhar e faço mentalmente a lista das coisas que é preciso arrumar e me estão a fazer comichão, mas primeiro tenho de terminar o trabalho. Ele senta-se no sofá a ver televisão, com a alegria de quem só repara que o chão está imundo se eu o fizer ajoelhar-se nele. Faço-lhe um olhar de repreensão, e ele levanta-se de um pulo: “o que foi? É a cama? É a loiça? Vou já levar o lixo lá para fora”, diz-me. Faz-me lembrar eu e o meu irmão quando a minha mãe entrava na sala e olhava para nós como se deitasse raios pelos olhos. Sabíamos que ia sair reprimenda, mas o que seria? Pesquisava durante milisegundos dentro da minha cabeça, primeiro para verificar se teria feito alguma asneira visível, depois para me assegurar que a toalha do banho não tinha ficado esquecida a molhar a colcha da cama.

Ela tinha sempre uma dose infindável de queixas, e nós rebolávamos os olhos. Mas ela tinha razão. Tinha toda a razão. Disse-lhe isso hoje. Finalmente percebo a minha mãe. Foi preciso chegar aos 34 anos e ter três semanas de casada. As mães, dotadas de um amor incomensurável que se renova continuamente, não recambiam os filhos para lado nenhum quando eles mostram ser uns inúteis mal agradecidos. Reiniciam todos os dias a tarefa de os educar, de aprender a lidar com eles, e é assim também no meu casamento. Ele está a aprender a lidar com o que considera ser a minha obsessão com as arrumações, e eu estou a tentar perceber como o convencer a fazer um bocadinho mais todos os dias sem me tornar na madrasta dos 101 Dálmatas.

[E é que, não desfazendo das outras mães todas, transformar-me na minha mãe é um privilégio. É uma grande senhora, a minha mãe.]

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