Repetição

Ainda não abriste a boca, e já estou farta do que vais dizer. 

Ouvi-te falar noutras gargantas, salivar noutras línguas, sussurrar com outras vozes. 

[És o mesmo, sem querer.]

Cansas-me por não adivinhares o que não deves ser: outro nome, mas o mesmo som. 

Outro riso, mas a mesma cadência. 

Suponho que é assim que nasce por dentro a dormência, de não sentir nada quando devia haver tudo. 

Queres que me dê a surpresa, e eu bocejo. 

Enches a boca de sol, e eu porém não me perturbo 

Porque és o mesmo, e o mesmo é um poço sem fundo, onde caem regularmente as coisas que eu achei que queria

Mas não podia ter. Ou não soube prender. 

Por isso, vês, não é que não tenhas palavras doces. 

Não é que não saibas o que dizer. 

Eu é que já não te posso ouvir. Mesmo antes de encheres o peito de ar. O que vais dizer pela primeira vez

Não é mais que repetir. 

 

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