Partir

Aterrei em New Orleans quando tinha 23 anos. A invasão do Iraque ainda estava quente e eu não tinha qualquer simpatia pelo “imperialismo norte-americano” que a comandara. Não gostava de George W. Bush nem do modo de vida americano; costumava dizer que era demasiado europeia para o compreender. A humidade permanente, a comida gordurosa, as unhas gigantes e os penteados exagerados estavam por todo o lado. Na Bourbon Street, levantam-se as blusas e atiravam-se colares das janelas, bebiam-se shots de umbigos e a qualquer momento era possível ser apanhada numa sanduíche de dança arrojada. Ninguém sabia onde era Portugal. I know it’s not in here.

Voltei a New Orleans no ano seguinte, antes do Katrina. Mas só quando pus os pés em São Francisco, no final de 2004, mudei completamente de ideias. Apaixonei-me pela América, mais ainda que pela Califórnia. Viver nos Estados Unidos tornou-se um daqueles sonhos latentes que são adiados porque é preciso esperar pelo momento certo.

Vários anos depois, percebo que nunca haverá um momento certo. O momento tornou-se agora. Já. Serei capaz de partir?

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