Tralha

Tenho caixas cheias de símbolos. Bilhetes de cinema de 1998, embalagens vazias de perfumes que acabaram há muito, postais de viagens noutra vida, roupas que deixei de usar, flores de plástico que me deram. Há muito que penso no que fazer com esta tralha do passado. Sempre achei que guardar estas memórias era uma forma de preservar a idade em que as construí; mas agora parecem pesar-me. Povoam-me o espaço interior, seguem-me agarradas ao corpo, deixando um rasto que não me deixa andar mais depressa. 

Não é que me doam, de alguma maneira. Arrependo-me de muito poucas coisas. Mas é que me fazem sentir agarrada a qualquer coisa que já não está cá. Eu, os outros, o futuro que nunca foi. Talvez pela primeira vez perceba o sentido que faz ter menos. Libertar espaço físico para ter mais espaço emocional. Não há grande utilidade em ter objectos que ajudam a recordar.

Porque tudo o que vale a pena recordar está por dentro, não por fora.

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