Momento

Quando tinha 13 anos, fiz uma visita de estudo à Serra da Estrela. Três dias na neve com colegas e amigos. Ao acordar no segundo dia, tive um momento de descoberta: o dia é tão pequeno. Tão pequeno que se vai num instante, e depois a noite desaparece no momento em que adormecemos. Como é que se consegue viver, sabendo que a vida está partida em dias tão pequenos e que a noite mata tudo o que vivemos? A ideia de eterno recomeço angustiou-me de tal forma que demorei meses a tirá-la da cabeça. Parecia-me que ninguém sabia disto. Ninguém reconhecia este padrão. A vida, no fundo, era um acumular de recomeços. Não era algo contínuo, era um distúrbio na continuidade. Tive de me convencer que era possível avançar na mesma, e que todos os dias não seriam mortes do dia anterior. Mas esta desconstrução do tempo na minha cabeça nunca mais me deixou. Tornou-se perversa, até certo ponto; se todos os dias se recomeça, não tenho de viver hoje. Posso fazê-lo amanhã. Ou depois. Adiar a vida aconteceu-me em ciclos – de alturas em que fiz tudo muito depressa, e vivi anos dentro de meses, e de alturas em que um ano inteiro me pareceu um mês, porque não vivi nada de relevante.

A dificuldade é encontrar o ponto certo, aquele em que se consegue viver no momento e ao mesmo tempo não pôr em causa o futuro. Remember to remember. Cheguei a um ponto em que adiar é desperdiçar. Forever, forever… Life is now or never. Esperar que as coisas se resolvam deixou de ser um exercício de paciência e passou a ser um desperdício. “Forever” is going to slow you down. É confortável pensar que se tem sempre mais um dia, mais uma semana, mais um mês, mais um ano. Procrastinação emocional. Balançar entre a ideia de que a vida é aqui e agora, e é preciso decidir já, e não querer comprometer o futuro por se decidir depressa demais.

Ironicamente, a pessoa que me disse que acreditava em viver no momento, porque um raio lhe podia cair em cima da cabeça e ninguém sabe quando tudo muda, é a mesma pessoa que não conseguiu decidir, porque é preciso tempo e paciência para que as coisas se resolvam.

No worries. Eu resolvo por ti.

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