Aspiração

Estava sentada no escuro, a chorar, como acontecia sempre à noite nas últimas semanas. Todas as angústias dentro dos olhos. Tinha 13 anos, e sentia o peso de não ser o que queria, não ter o que pedia e não saber onde ir buscá-lo. O rádio estava ligado sem que eu escutasse o que passava [não queria que me ouvissem chorar]. Encostada na parede, pousei a cabeça nos joelhos. E nesse segundo, escutei. O rádio ecoava a voz do Miguel Ângelo a falar de lugares ao sol, agarrar os dias e lutar e merecer coisas. Foi o momento em que parei de chorar. Senti que me derrotava a mim própria para evitar que os outros o fizessem. Naqueles minutos, que raios, aquilo soou-me a alguma coisa. Aquilo pareceu-me verdade. Aquela música suprimiu todas as noites de choro que se seguiriam. Percebi, nessa noite, que o meu gene dramático não podia ser mais forte que o meu ego. Percebi que tinha de aprender a sofrer, deixando intacta a capacidade de sonhar. 

Apavorou-me ser infeliz. Vinte anos depois, ainda me lembro – e ainda me apavora, não tanto o ser infeliz: mas ser incapaz de ver para lá de um estado de infelicidade. 

A felicidade, tal como a juventude, não é uma qualidade, é um estado. Há-de passar, sempre. [Mas, ao contrário da juventude, há-de sempre poder voltar].

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