Insubstituível

Era  impossível saber, nos vintes, como as pessoas insubstituíveis se desvanecem dentro de nós. Todas as perdas foram derrotas, e todas pareceram um buraco negro, impossível de voltar a encher. Porque projectamos nos outros aquilo que pensamos de nós próprios – que somos únicos, insubstituíveis, especiais. Aquilo que os 30 trazem é o conhecimento de que o tempo desfaz tudo. Aquela música que não se conseguiu ouvir durante anos toca, e nada acontece. Nenhuma memória perdida, nenhum recanto da alma a vibrar. Esbarro em fotos do passado, e não sinto nada, nem sequer ternura. Nada. Foi noutra vida. Os amigos que se perderam, os homens que se amaram, as pessoas fascinantes que se conheceram fazem parte do todo, ajudaram a construir a personalidade, mas ninguém faz falta para sempre. A capacidade de amar não é uma fonte que se esgota, renova-se. É possível fazer tábua rasa. É possível não ter ressentimentos.

O que é mais difícil é não ter o cinismo típico de quem já viu a mesma história desenrolar-se várias vezes. É um erro: tal como quando se atira uma moeda ao ar, sair 10 vezes caras não melhora as hipóteses de sair coroa na próxima vez. Estatisticamente, o passado não tem qualquer influência no futuro. Usar o passado como referência, especialmente como forma de desconfiança crónica, é um erro. Difícil é agir em conformidade, sabendo-o.  

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