Madrugada

No dia em que as coisas começaram, o relógio começou a contar. Não chovia. O frio era suportável. Às cinco da manhã, o tempo suspendeu e reverteu-se. Como uma história que é contada ao contrário. Como uma vida que é vivida pelo avesso. Conta-se para trás, do futuro para trás, até chegar ao ponto de inflexão: o momento em que, ao nascer, o Amor morre.

Se ninguém me dissesse, eu adivinharia o futuro nesse minuto. Os nomes mudaram ao longo dos anos, mas é como se fosse sempre a mesma pessoa, sempre a mesma história. Uma espécie de maldição que ninguém quebra. A novidade dissolve-se com a aproximação da consciência: é um erro. Procuro, em cada homem com outro nome, indícios de que desta vez será diferente. Que aqui não haverá indisponibilidades, não haverá namoradas, esposas, noivas, filhos, não haverá trabalhos insuportáveis nem muros intransponíveis.

Mas nunca chega; eu nunca chego. Antes que as palavras lhe saiam da boca, eu já sei o que vou ouvir. Os olhos dizem o mesmo que outros disseram no passado. Nenhuma quantidade de elogios pode amparar esta queda: eu não sou suficiente. Nada do que tenho, nada do que sou, nada do que poderei ser, os meus lábios, os meus olhos, as minhas mãos, a minha voz, nada disto, junto ou separado, é suficiente. Sou a melhor que já conheceram, mas não sou suficiente para me quererem para sempre.

A história repete-se, mas já não me convence. Naquela madrugada, às cinco da manhã, com o primeiro beijo, eu sabia que era mais um engano. Disse-o em voz baixa, mas deixei-me cometer o erro. Todos os erros do mundo são menos importantes que sentir. Eu ouvia a contagem decrescente na minha cabeça. Cada beijo era menos um que eu ia ter. Cada abraço era menos um que eu tinha para sentir. O crédito era baixo, mas eu achei que não podia escapar – e não pude. Não posso ainda.

Sinto-me a caminhar pela areia da praia deserta às primeiras horas da manhã, com a quietude de quem se rende. Esmaga-me saber: não terei esse final feliz das pessoas normais. Então caminho com a libertação de quem sabe que não há nada a perder, porque nada tenho mesmo. Caminho com o sol que não queima nem se põe. Está ali, como estou eu à espera que o sentimento se desvaneça, sem que eu tenha de o matar. Hei-de regressar às cinco da madrugada para o ver sumir-se. 

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