Valentine’s

Estou longe de tudo, e há poucos sinais da algazarra de corações vermelhos e caixas de bombons e flores em barda que hoje serão comprados, entregues e consumidos. Dia dos Namorados. Qualquer solteiro-em-série, como eu, quer que o dia acabe depressa. O dia de celebrar o Amor é como um lembrete daquilo que nos falta.

Olho em volta frequentemente e fico pasmada com os casais que vejo. Eles não sabem como é raro aquilo que têm. Entre milhões de pessoas, um apaixonou-se pelo outro e o outro apaixonou-se de volta. E estão ambos disponíveis. Livres. Ambos dispostos a cederem. Ambos dispostos a abrirem espaço na vida um para o outro. “Que bruxaria é esta?”, penso, várias vezes, quando vejo esses casais onde o amor é quase visível, salta-lhes pelos olhos fora. É uma coincidência tão fantástica, tão perfeita, que só quem não consegue chegar lá reconhece a sua magnitude. Aqueles que, como eu, vagueiam entre relações difíceis, despropositadas, que inexoravelmente caminham para o fim desde o início, não sabem onde encontrar esta feitiçaria.

É fácil arranjar encontros. É fácil arranjar companhia. Que diabos, até é fácil arranjar quem se apaixone perdidamente por nós. Também é fácil cairmos de paixão por alguém. O irreal, o inatingível, é esbarrar com essa ligação em que ambos se apaixonam, no momento em que estão livres, e decidem ficar um com o outro.

Eu, que sou a rainha das paixões inconsequentes, já ouvi de tudo. Sei que os solteiros-em-série o ouviram também:

– Tenho demasiado trabalho, não posso ter uma relação agora;

– Não acredito em compromissos/papéis/casamento/definições. Não podemos ir com a maré?

– Tu mereces um homem que te ame a 100%, e eu não consigo dar-te isso agora;

– Somos demasiado diferentes, e tu és demasiado independente;

– Não gosto de mulheres vistosas. Não vou conseguir aguentar isto;

– A minha namorada/mulher/noiva passou por muito. Não posso abandoná-la agora. Mas queria estar era contigo;

– Este momento não é bom, porque é que não te conheci noutra altura?

E variantes disto.

Quando se é solteira aos 33, a sociedade desconfia. O que tens de errado, porque é que ninguém te quer? Mesmo quando juramos a pés juntos, e a dizer a verdade, que somos felizes, que temos a vida que escolhemos, que isto é mesmo assim, que fazemos o nosso destino, que o Amor não é tudo. Ainda que se queira esse Amor, mas não se precise dele.

O meu problema – o maior problema – é que eu já não acredito no Amor.

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One thought on “Valentine’s

  1. É uma defesa tua e é legitima. Mas tenho a certeza que um dia o amor-de-ambos-disponíveis aparece e voltas a acreditar. 🙂

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